9 de agosto de 2010

Uma bailarina

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8.
é assim que começa.
e continua.
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8.
Tão simples e tão complicado assim.

E lá estava eu.
Colan rosa, legging preta, sapatinha rosa, cabelo preso.
Lá também estava a música, a barra e o espelho.
Simples assim.

E dentro de mim estavam todas as emoções do passado.
Toda a estranheza de quem esteve tão longe do que deveria estar perto.
E todas as lembranças perfeitas dos detalhes que fazem uma bailarina.
Postura, ponta do pé, quadril encaixado, segura o braço, mão leve, esconde o dedão, rosto pra cima, ombros pra trás, murcha a barriga. Solta a barra, não dobra o joelho. Fica.
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8.

A música marcava o passo, a cada hora mudavam as posições.
E eu não me via.
Eu me revia.
Era como se eu tivesse voltado no tempo e estivesse ali.
Mundo a descobrir, vida a viver, sonhos a sonhar, há 14 anos atrás.
Era como se os problemas se resumissem ao queimar do músculo da minha perna e de cada pedaço do meu pé, costas e braços. Como se tudo começasse e terminasse ali.
Fica.
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8.

Que saudade de mim. Como foi bom me encontrar naquela sala em meio aos pliês e tundes, como vai ser bom viver tudo isso de novo, como se fosse a primeira vez.

Sabe, a vida é uma aula de balé. Há de ser capaz de parecer que é leve, livre, solto, fluido, mágico, todo passo que muitas vezes de fato é duro, que marca, dói, exige, cansa, pede mais e mais do corpo e da mente. E de tanto pedir, de tanto exigir, se transforma e para de só parecer para ser lindo, apesar do esforço e apesar da dor.

E eu. Ah... eu sou uma bailarina, não podia ter me esquecido disso.